Escritores celebrados como Dennis O’Neil, Alan Moore, Grant Morrison, Spain Rodriguez, entre outros, nunca esconderam que tinham posicionamentos políticos a esquerda, enquanto escritores como Frank Miller, John Byrne e Chuck Dixon também nunca esconderam seus posicionamentos conservadores e a direita. Portanto, os posicionamentos políticos dos roteiristas sempre estiveram presentes nas histórias em quadrinhos.
Mas uma escritora que sempre se destacou por seus posicionamentos políticos foi Ann Nocenti, que por diversas vezes entrou em conflito com os editores da Marvel. Nocenti, muito influenciada por pensadores de esquerda como Edward S. Herman e Noam Chomsky, era conhecida por abordagens políticas com críticas à política externa estadunidense, ao capitalismo, ao machismo e à sociedade conservadora e patriarcal dos Estados Unidos. Nos quatro anos em que esteve à frente das histórias do personagem Demolidor (alter ego de Matt Murdock), as histórias tinham forte crítica social, falava-se muito das fases Frank Miller e Brian Michael Bendis, sendo que ela assumiu o título do Homem-Sem-Medo após a Saga a Queda De Murdock.
Em "O Pesadelo Americano", Demolidor 283/1990, escrita por Ann Nocenti e ilustrada por Mark Bagley, temos um Capitão América, sob efeitos de metanfetamina que lhe causou um surto de consciência política, revoltado com a intervenção imperialista dos Estados Unidos na América Latina. Um ano antes da publicação da HQ, dezembro de 1989, os Estados Unidos, sob a presidência de George W. Bush, haviam invadido o Panamá com o objetivo de depor o antigo aliado, o general Manuel Noriega.
A invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos revisitaram a história escrita por Ann Nocenti e reflexões sobre o imperialismo estadunidense. Os contextos históricos não são os mesmos, mas a ideologia da Doutrina Moore está presente nos dois casos. A história roteirizada por Ann Nocenti também aborda questões como imigração e xenofobia e as contradições de uma sociedade estadunidense em crise.
Histórias em quadrinhos como fontes históricas nos possibilitam compreender o contexto social, político e cultural de determinado período da história. E também o posicionamento político dos escritores de como estes assimilam determinados eventos históricos e os reproduzem por meio da narrativa e a reação dos personagens ficcionais a determinados eventos históricos.
Texto Luiz Carlos Crônicas de um historiador.

Nenhum comentário:
Postar um comentário